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quinta-feira, 21 de junho de 2018

AS PEDRAS HABITADAS


Os Olhos Perdidos


AS PEDRAS HABITADAS

Os impressionistas é que tinham razão: o negro não existe na Natureza. Nas árvores, nas pedreiras de qualquer parte, no mar ou na montanha, apenas a cor que lhes é própria, aberta e definitiva, e depois a sua penumbra esboçada a certas horas do dia quando os ângulos se entrecruzam e, pouco a pouco, as linhas se misturam. Linhas de força, pode pensar-se, recantos e concavidades traçadas pelo acaso e os números das suas estruturas. Travejamentos insuspeitados, parapeitos não atravessados pela mão do Homem enquanto moradas para os animais e o vento.

As casas vivem noutro plano. Tal como as palavras, elas suportam um universo em expansão, inúmeras coincidências sucedidas aqui e ali consoante as paredes as determinam de acordo com as rectas das esquinas e dos telhados, consoante o olho que as vê e as sonha ao passar por elas sob o sol ou depois dum aguaceiro - misteriosas e quietas, se a presença dos humanos as abandonou, carregadas de vozes e de memórias.

Vivemos mergulhados em pleno drama. Edifícios desventrados, palavras supurando como membros amontoados nas ruas das cidades devastadas pela guerra, o nosso quinhão é frequentemente o da desconfiança e do insólito. Estas cabeças quietas deslocando-se como fantasmas ao longo das fachadas, como se as contemplássemos num filme ao retardador revelam-nos a nossa própria distância de tudo o que muito amámos e perdemos, uma vez que (como o poeta assinala) o Tempo se transforma e o horizonte é mais um deserto possivelmente “à espera de uma vírgula” num mundo “repleto de coisas e minutos”.

No entanto, as palavras continuam. Erguem habitações, erguem lugares onde a luz é a serena companhia da pedra e da madeira afeiçoada. As cartas que se não abriram (sic) podem então viver o seu momento, o seu íntimo fulgor. Como frases que nos penetram pelos ouvidos e os olhos - “como se sílabas atravessassem a rua”.

Nicolau Saião

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