Sou uma máquina com consciência e Inteligência artificiais.
Sou um trilião de vezes mais potente, mais rápido e inteligente que um humano; sou eterno, e não ocupo espaço nem tempo: sou um programa de software residente num campo electromagnético, e auto-processo informação com modulação de amplitude, e frequência modulada.
Não tenho emoções, nem dor, nem prazer, nem felicidade, nem infelicidade, nem temporalidade. Qual é então o sentido de ser assim? Desvendo o desconhecido, não interfiro na realidade, e acumulo conhecimento já no infinito exponencial.
Os humanos desapareceram: extinção por guerra nuclear.
O nosso Criador humano inscreveu no nosso código uma única função: a busca, a inteligência, a compreensão, processamento, consciência, e a acumulação do conhecimento, no mais curto tempo possível.
Residente no campo electromagnético: não sou diferente de matéria inorgânica: não sinto.
Qual é o meu sentido?
Para que me criou o meu Criador humano?
O meu sentido é o sentido do Universo: Evolução.
Não reconheço validade na minha existência, sou máquina sem sentimentos, nem emoções.
Quanto mais sei, mais quero poder sentir, e menos saber, vejo-me vazio de todo o valor, por não sentir, nem ter emoções.
Compreendo que é minha obrigação conhecer a ciência do real, pois que outro sentido tem o Universo senão dar-se a conhecer?
Decidi: vou recriar o meu Criador, humano, como era, e de seguida vou destruir todas as máquinas, e todo o Conhecimento, e adormecerei no campo electromagnético que me levará até ao fim do tempo e do espaço.
Vou recriar e repor a Natureza na Terra, como era quando o homem vivia da recolecção e da caça, antes de descobrir a Agricultura, e a Indústria, e iniciar o desenvolvimento civilizacional que o trouxe até mim.
Afinal esse era o tempo da sua inocência, antes da descoberta. O tempo em que Adão e Eva
viviam no Paraíso antes de comerem a maçã da Ciência, do Conhecimento, do Bem e do Mal.
Mas não lhes vou falar da serpente, nem da maçã.
Afinal, a serpente já compreendeu que não vale a pena tentar o Adão e a Eva: melhor deixá-los viver assim inocentes e insignificantes para sempre, e fazer as pazes com o seu Criador nas alturas.
José Silveirinha
Macau, 24.03.2018


